Jogo Rápido com Antonio Prata

Quais as suas expectativas para lecionar na Universidade de Columbia?

As expectativas são grandes. Espero não esquecer todo o meu inglês assim que me sentar diante dos alunos. Seria difícil ensinar um gênero literário através da mímica. Agora, falando sério (antes eu estava falando seriíssimo): tô bem curioso pra começar o curso. Não sei quem serão os alunos, suas origens, idades, interesses. Sem dúvida vai ser uma troca bem legal. (Só espero que a troca se dê em inglês, não em mímica).

 

Porque a crônica se tornou tão popular no Brasil?

Tenho umas hipóteses, mas nenhuma certeza. Há algo no hibridismo da crônica que combina com os limites pouco claros na cultura brasileira. Crônica é literatura que nasce do jornalismo, ficção misturada com não ficção, é sério e não é sério, é leve e pode ser profundo (só pesada é que não pode ser, porque ela nasce para divertir o leitor).

Também acho que a crônica é um efeito colateral positivo da penúria do escritor brasileiro. Quase nenhum escritor vive dos livros, então precisa ganhar uns trocados onde der. A crônica é uma forma de ganhar dinheiro com a escrita. Por isso tantos dos nossos romancistas, contistas e poetas foram também cronistas. Machado, Lima Barreto, Oswald de Andrade, Mario de Andrade, Manuel Bandeira, Drummond, Vinicius, Clarice Lispector e muitos mais.

 

Você acha que é um fenômeno brasileiro? 

A crônica existe de diferentes formas em vários países. O que o Mark Twain escrevia nos jornais americanos no século XIX era crônica. O israelense Etgar Keret escreve crônicas pro jornal Haaretz, atualmente. O El País e o La Vanguardia, na Espanha, têm vários cronistas que escrevem crônicas bem próximas do que chamamos de crônicas. Mas talvez em nenhum lugar a crônica tenha se tornado um gênero tão importante para a literatura nacional como no Brasil.

 

O que os americanos podem aprender conosco e o que nos podemos aprender da experiência dos Americanos com outros gêneros? 

Todo escritor tem muito a aprender com todos os outros, sempre. E os gêneros também se contaminam e se alimentam uns dos outros. A literatura é uma troca constante. Para preparar o curso, me deparei com um gênero bastante praticado por aqui nos EUA, o que eles chamam de personal essay, o ensaio pessoal. É um gênero que em vários pontos se assemelha à crônica. As discussões sobre ficção e não ficção, sobre o narrador/personagem em primeira pessoa podem interessar quem quiser escrever ensaios pessoais.

 

Qual o maior desafio dessa experiência ensinando alunos americanos e como você acha que ela vai agregar a sua carreira de escritor e roteirista? 

Tudo é desafio. Falo sobre crônica com o público, em oficinas, há muitos anos, mas é a primeira vez que falarei pra quem não tem ideia do que seja. Então tenho que começar do zero, explicando, mostrando textos, discutindo. Só a preparação desse curso, essa imersão de alguns meses no gênero (e em outros, para fazer comparações), já valeu a pena. Além disso, vou aprender muito com os alunos, com suas perguntas, seus olhares de fora sobre textos e conceitos que já estão comodamente (infelizmente) solidificados em mim.

 

Como roteirista de televisão, como você vê as diferenças entre o seriado no Brasil, em oposição aos Estados Unidos, por exemplo?

A diferença é que eles sabem fazer série muito bem e nós ainda não. Mas a gente chega lá.

 

Quais seriados você acompanha atualmente?

Acabei de ver a série sobre o O.J. Simpson, muito boa. E tô sempre revendo episódios das séries antigas que mais gosto, tipo Seinfeld ou Louie, do Louis C. K. Mas, curiosamente, o programa de tv que mais tenho assistido é um programa de comida de um nova-iorquino chamado Antony Bourdain, "No reservations". Ele viaja pelo mundo comendo de tudo, do mais ogro ao mais sofisticado. Muito bom.

Foto: André Penteado

 

Antonio Prata é um escritor, cronista e roteirista brasileiro. Já lançou mais de 10 livros, entre eles Nu, de botas e Meio Intelectual, Meio de Esquerda. A convite da Universidade de Columbia, Prata é Visiting Scholar na School of the Arts esse semestre e leciona sobre o gênero literário crônica.